terça-feira, 2 de novembro de 2010


Escrevo na tentativa de guardar imagens. A minha imagem, a imagem dos outros, a imagem de uma estória condensada no infinito e exato momento do olhar... A inebriante e gostosa estória de um mau amor, tão mau que é bom, tão bom que é mau!

Era uma vez, um navegante e mais três. Eis que surge uma donzela efetivamente de porre portadora de um cigarro no canto da boca. Lês deux amants, ali no meio de ventos um tanto assanhados e ondas de dar medo trocaram olhares demorados. Era o instante exato em que pai e filha se reconheciam um no outro, amedrontados pelo arrepio que se perpetuava no corpo quando o choque de vidas passadas, vividas, romanceadas vinha à tona. Dois corpos e centenas de vidas na bagagem e isso pesava de modo que eles se esforçavam para não caírem um em cima do outro, na parede ou no chão, continham-se. Mas era justamente esse “conter-se” a calda viscosa da relação baseada em apertar demais e pouco afrouxar. Afrouxados, eram um problema... O valente navegante precisou unir as forças de todo o seu batalhão de vidas a fim de garantir sua lealdade à outra amada, A amada, a esposa que o esperava com um café quente ao lado da cama.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010




Calor infernal subia pelo asfalto; caminhou com algum esforço necessário para chegar até o bar mais próximo e pedir uma cerveja gelada, daquelas que cortam a pele da garganta. Se sentou numa daquelas mesinhas no canto pra gente como ela e fez o pedido. O dia não era um dia qualquer, mas uma sexta-feira sagrada. Bebeu o primeiro gole e a cerveja, apesar de não muito gelada como imaginara, desceu suave como tudo naquele momento. Pensou que a sexta-feira deixava as coisas assim: com um quê de leveza. A cerveja natural, toda a gente chata, a rotina, tudo descia estranhamente leve.
Ele estava atrasado... Qual seria a exata razão? Um simples engarrafamento, pensou. Ou seria seu descaso total para com ela?? Um homem que se preze não deixa mulher nenhuma esperando, pelo fato de que é assim e ponto.
Na verdade, deixando o sexo de lado, fazer esperar é sempre feio. Mas vamos combinar que essa atitude vinda de um homem é muito mais desprezível, afinal, somos regados à uma cultura patriarcal em que o macho é o gentleman da estória, os deveres dos homens não são os mesmos deveres destinados às mulheres e vice-versa. Tolice! Ninguém sabe a razão de tudo isso e daquilo e desse outro, mas com certeza deve haver alguma.
Mas, voltando... O que haveria de errado com ele? Ou seria ela a errada? Neuroses de um complexo materno crítico. A sua auto-estima variava como as fases da lua, ou pior, como um sinal de trânsito que a cada instante muda. Em um determinado momento a rua estava disponível para a livre circulação de veículos, eles passavam livremente sem nenhum estresse. Mas havia também os momentos vermelhos de paranóia e uns amarelos de indecisão que eram só transeuntes e no máximo, bicicletas.
E a vida seguia depressa, com algumas ínfimas bicicletas sem muita importância que adentravam de quando em quando por ali. Sorte dela, melhor bicicletas que a rua vazia. Qualquer coisa é melhor que o vazio, uma dor significante como a que sentia agora era melhor. Que grande bobagem! Nem o conhecia de todo, me diga, pra quê toda aquela agonia? Bebeu mais um gole da sua cerveja natural. Estava sozinha. Só em uma mesinha de bar, enquanto as outras mesas estavam abarrotadas de gente de mãos delicadas e sorrisos largos, aparentemente felizes. Claro que eram felizes, com tamanhos sorrisos como não seriam? Sozinha com um copo de cerveja na mão esperando uma possibilidade. É, ele era apenas uma possibilidade e justamente por isso tinha tanto valor! Porque isso podia se tornar aquilo, todos sabem que a semente se torna árvore um dia.

domingo, 3 de outubro de 2010




E te digo uma coisa... você é culpado! Sim, culpado por essa fumaça que percorre meu corpo a cada 5 minutos. E os meus cabelos brancos? sim... Tudo sua culpa. A culpa de meus quilinhos a mais de puro chocolate, a culpa por minhas numerosas lágrimas, a culpa de meus gritos sufocados... Guilty. Ah... E a maior de todas as culpas: culpado por eu finalmente me sentir viva.


A dança




As pernas soltas no ar me fazem lembrar,
Os braços soltos no ar me fazem lembrar,
Quadris, mãos, olhos e pensamentos soltos me fazem lembrar
Do que me dói, do que é vivo, da infinitude do infinito, de você (tão estranho e tão íntimo).
Fico me perguntando porque o inesperado SEMPRE vem ao meu encontro, mesmo quando eu não peço por isso. Devido a tal infortúnio ,que também é benção, te tenho apenas como mais um alguém , que por sorte, virá a ser menos... menos.... menos....

sábado, 11 de setembro de 2010





12 de Setembro de 1991:

Desde esse dia, venho nascendo e morrendo, nascendo e morrendo, nascen...
Por uns segundos enxergo pra depois não ver mais nada.
Entre a dor e a vertigem há o que se comemorar.

sábado, 28 de agosto de 2010





olhos nos olhos e o mundo inexiste.
Me afundo naquela cor castanho-claro-brilhante-vivo,
castanho-claro-medo,
castanho-claro-enfeitiçado por olhos negros-noite-ciganos com um quê de preto-breu-espiritual, preto meu.
A cor em que tu se afundou de tal forma que desafogou depressa e respirou fundo, amedrontado pela possibilidade de ser engolido alí mesmo. Massante pecado desviar os olhos...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010



vermelho profano

O sangue se mistura com a água e esvai-se pelo ralo, o meu sangue. Sou mulher, mas funciono como cadela no cio. No fundo das coisas, não há diferença entre uma cadela que solta sangue pela vagina e uma mulher que solta sangue pela vagina. As duas procuram um macho alfa pra se satisfazerem, e depois outro, e depois outro e assim sucessivamente. A feminilidade é vermelho sangue. Eu, particularmente, gosto muito dessa cor que sai de mim. É tudo tão íntimo, tão claro e visceral... Os ciclos da lua, das marés, da rotação da terra, de todo o funcionamento do universo está nesse sangue que vai embora pelo ralo,pelo esgoto,pelo mar,pelos rios que alimentam as plantas que nos alimentam fechando ciclos,ciclos,ciclos! Todos aqueles leões famintos farejam o odor amargo sangue a quilômetros de distância, olham para os lados embriagados procurando... Os movimentos sinuosos, o ar imperial e os olhos hipnotizantes daquela que não se sabe nomear: misto de divino que é profano e um punhado de carne, tanta carne! A saliva escorre pelo canto da boca dele, enquanto ela caminha fingindo não ser nada, sendo tudo. Pobre leão.